quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

DE VOLTA A KEYNES - E SCHUMPETER?

Reproduzo literalmente (leia neste blog, se não é assinante da Folha ) um artigo de Delfim Netto, tão criticado quando Ministro da ditadura e hoje, respeitado e ouvido, quando a crise da economia mundial toca as portas do Brasil.
Refere-se o ex-ministro da utilização de forma indiscriminada, entretanto de forema positiva, de conceitos e idéias de economistas que foram a base de propostas de modelos econômicos. Aí estão: Smith, Marx, Walras, Marshall e Keynes.
Da minha conta e risco acrescento o Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) que foi um dos mais importantes economistas do século XX. Suas teorias foram uma resposta ao enfoque neoclássico (tradicional) que colocava apenas no mercado a questão do progresso técnico, como fator fundamental para alcançar o crescimento econômico e acima de tudo o desenvolvimento, sem esquecer suas condicionantes para a transformação da economia (novas fontes energéticas, novas formas de gestão, novos mercados, empresários inovadores, etc.).

Por que Keynes?
Antonio Delfim Netto

OS ECONOMISTAS dão o nome de "bem público" aos bens ou serviços que gozam de duas propriedades: 1) ninguém pode ser excluído de seu uso e 2) o uso que cada um faz dele não diminui a quantidade disponível para os outros, como é o caso, por exemplo, da defesa nacional.

Existem pessoas cujo pensamento tem um vigor e uma originalidade (mas não clareza) que gozam das propriedades dos bens públicos: transformam-se em instituições. Alguns economistas de várias tribos (esta expressão já está na "Riqueza das Nações"), Adam Smith (1723-1790), Karl Marx (1819-1883), Leon Walras (1834-1910), Alfred Marshall (1842-1924) e John Maynard Keynes (1883-1946), assumiram esse "status".

Existe um Smith, um Marx, um Walras, um Marshall e um Keynes para cada um de nós. Seus pensamentos são tão vigorosos e originais que depois de nos atingirem nunca mais nos livramos completamente deles. Felizmente não são claros. É essa ambiguidade que permite que cada um deles possa ser o "nosso" sem que isso impeça que seja também dos "outros", cada um à sua maneira.Nenhum deles produziu uma "explicação" definitiva do "universo econômico". Todos, entretanto, viram alguns aspectos fundamentais da vida econômica (e de sua influência sobre a condição humana) que um dia, talvez, integrarão uma compreensão da contínua e crescente complexidade que a domina.

É por isso que hoje todos podemos ser um pouco smithianos, marxistas, walrasianos, marshallianos e keynesianos, sem arrependimento, sem vexame e sem contradição.O que parece inegável é que a crise que estamos vivendo, produzida pela maléfica "autonomização" do sistema financeiro, encontra a sua melhor explicação em Keynes. Afinal isso não deveria ser surpresa: ele enxergou mais longe porque subiu nos ombros dos antecessores que, às vezes, finge ignorar. Com a sua teoria monetária da produção, ele colocou a moeda, o crédito, a demanda e a incerteza no coração do sistema.

Os macroeconomistas, em lugar de continuarem a cultivar uma teoria monetária obviamente estéril, e os economistas "financeiros", em lugar de procurarem distribuições "gordas" para justificar os "desastres" nos preços dos ativos, deveriam procurar desenvolver a intuição keynesiana sobre como funciona a economia tocada a crédito quando o futuro é rigorosamente opaco e imprevisível.É hora de aceitar que entre os modelos de equilíbrio geral (que fazem a "ciência" de alguns de nossos bons economistas) e a economia monetária da produção existe distância intransponível. Naqueles, a moeda e o crédito sempre serão fatores essencialmente estranhos.

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